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Cicatrizes de Corpo e Alma

Sou Mulher.

Queridos leitores,

O mês de março está voando. Nesta semana que passou, foi o aniversário de minha mãe — uma grande mulher, apesar de seus um metro e meio de estatura! Ela nasceu no dia de São José e dizia orgulhosamente: “Se não chover no sertão até o dia 19 de março, não terá chuva mais esse ano”. Não sei se é verdade, mas eu sempre acreditei!

Talvez este escrito de hoje seja um choque para muitos. Não é uma discussão política, mas é uma pauta que tem sido politizada, na qual nem a lógica, nem a ciência e, principalmente, nem a única verdade têm sido respeitadas. Aos poucos, estão querendo apagar a mulher da história humana!

Assim, pensando em minha mãe, minha referência de mulher, e em todas as mulheres que ainda lutam para serem vistas, resolvi contar a minha “História” (essa sim com H) de mulher!

Quando tinha meus 23 anos, engravidei. Não foi de proveta; foi no método normal e original de meros mortais fazerem filhos. O pai da criança só queria a saída mais fácil, então eu encarei tudo sozinha. Meus pais me apoiaram, mas eu me tranquei em mim mesma e só conversava com minha barriga. Foi assim que aprendi a ser Mulher, com M maiúsculo!

Aos 46, descobri um mioma gigantesco (tinha o diâmetro de um feto de 28 semanas) no meu útero. Fiquei aterrorizada. Foram-me dadas três opções de tratamento. Numa delas, quando o médico começou a explicar o método, pedi a ele para parar; tudo começou a rodar, perdi a cor e quase desmaiei. Ele me socorreu e não explicou mais os métodos; simplesmente imprimiu a explicação de cada um para eu ler — e, lógico, eu não li. Liguei para minha prima Marininha, perguntei o que ela me aconselhava e ela optou pela via mais radical: a de tirar o útero. Não era a opção que me fez passar mal, diga-se de passagem!

Minha primeira tentativa de pintar um auto-retrato, a foto que fiz para ela ficou sensacional, a pintura só o detalhe que queria mostrar ficou bom! Valeu a tentativa!

Tirar meu útero, lugar onde carreguei minha filha por nove meses, a maior marca de ser mulher… foi difícil. Mas entendi, naquele momento, que ser mulher não é só ter órgãos femininos, mas sim saber e entender que esses órgãos dão uma energia sem igual à mulher. Imaginem: nós geramos vidas. Existe força maior que essa? E, mais uma vez sozinha, enfrentei a cirurgia e fiquei me perguntando se, depois dela, eu ainda teria forças como antes…

Aí veio a pandemia. Ê, pandemia! E um dia, no começo de outubro, estava eu deitada na cama, só de calcinha, com meus braços para cima — as mãos como travesseiro —, quando senti uma coceira no meu peito esquerdo. Automaticamente, minha mão direita foi coçar a área e, nesse momento, senti que havia um caroço ali… Nunca pulei tão rápido em minha vida! Fiquei sentada na cama procurando o caroço, que ora estava lá, ora não. Era uma quinta-feira. Naquele dia, à tarde, tinha ido ao novo consultório para regularizar minha situação, agora que a pandemia dera uma trégua. Na sexta, no ônibus indo trabalhar, liguei para um número de emergência. Depois da triagem, foi marcada uma hora para o médico me ligar. Quando cheguei em casa, recebi a ligação do doutor, que me fez muitas perguntas e disse que, pelo que eu estava descrevendo, parecia ser benigno; porém, ele queria me ver na segunda-feira para examinar e investigar.

E na segunda tudo começou de verdade! Depois de uma burocracia e do marasmo que a pandemia causou, finalmente consegui que meu ultrassom fosse agendado no Chase Farm; acredito ser o melhor hospital daqui de Enfield. No dia do exame, assim que vi o “talzinho” na tela, tive certeza do que era. O resultado oficial veio no dia 23 de novembro de 2020. Fui com uma amiga baiana que veio aqui em casa me buscar, só para segurar minha mão. Notei que ela ficou mais abalada do que eu. Depois que ela foi embora, liguei para Núbia, que já sabia; contei pelo WhatsApp entre um exame e outro. Foi tudo tão rápido… senti que o trem tinha começado a andar e eu nem tinha embarcado ainda! Núbia, em um pânico que achei normal depois de Ricardo e mamãe, me disse algo ao que respondi: “Na verdade, não queria nenhum tipo dessa doença, mas, já que não tenho essa opção, que seja esse tipo que tenho, pois, segundo a enfermeira, era o mais fácil de curar”. Então, escutei a Núbia se acalmar no telefone. Realmente, eu estava anestesiada. Calma, até.

Escolhi manter em segredo; sentia que, toda vez que contava para alguém, esse negócio se tornava mais real. Não adiantava tentar fugir: eu tinha que me preparar para essa luta. Durante o Natal e o Ano Novo de 2020, tive Covid. Fiquei tão mal que pensei que não chegaria a 2021, que não haveria tratamento porque eu já teria partido… Nesse momento, foi quando tive certeza de que Deus estava me carregando. Mesmo que tivesse alguém para conversar e contar meus medos mais íntimos, desta vez eu tinha certeza de que não faria diferença. Então, confortava as pessoas que estavam em pânico, chorava até adormecer e, todo dia de manhã, acordava com a energia renovada! Veio a cirurgia, um momento “punk”, mas consegui passar por ele. Depois do resultado da biópsia, preparei-me para a quimioterapia — que, com a graça de Deus, não precisei fazer —, mas tive que tomar um remédio que me enfraquecia, além de outros inúmeros efeitos. Mas eu segurei a onda. A radioterapia também foi difícil; a cada dia que passava, ficava mais complicado chegar ao hospital, mas segurei essa onda também.

Hoje, depois de cinco anos tomando um medicamento com mil e um efeitos colaterais — além de exacerbar os sintomas da menopausa, apesar de nunca ter sentido nenhum deles antes —, peguei-me várias vezes esquecendo palavras. Um cansaço sem fim. Fora os ataques de pânico, que pareciam ataques do coração e que, de vez em quando, ainda tenho… E assim fui levando…

Segunda tentativa de um auto-retrato pintado em aquarela. Fazer as fotos e as pinturas foi a maneira que encontrei de lidar com o meu corpo agora com cicatrizes que tiraram minha auto estima.

Não tinha ideia do quanto a radioterapia tinha me afetado. Depois de sofrer uma queda, deslocar o ombro e fraturar o braço direito — passando mais três meses de cama, agora com uma cuidadora que vinha me dar banho e me ajudar com a comida —, voltei a trabalhar. Já estava com um alvo na testa pois, além de estar com quase 60 anos, eu ainda estava sendo tratada de um câncer de mama. Eu, ingenuamente, acreditei no lema da MAC, que é: “Todas as raças, todas as idades, todos os sexos!”. E, para completar a minha ingenuidade, acreditei que a empresa Estée Lauder, empresa “mãe” da MAC, iria cuidar de mim por ser paciente de câncer de mama, pois eles são os donos da Campanha do Outubro Rosa, criada pela nora de Estée Lauder! Doce ilusão!

Por volta de dezembro de 2021, recebi um e-mail da gerente da loja em que estava trabalhando. Era um e-mail para todo o time, perguntando a cada uma de nós qual pronome queríamos que fosse colocado no crachá ao lado de nosso nome. Fui rápida na resposta: disse que não queria nenhum pronome, meu nome era suficiente. Ela me respondeu que eu tinha que escolher um. Então, respondi que, ao invés de pronome, eu queria “Sobrevivente de Câncer”. Mais uma vez, ela insistiu que tinha que ser um pronome. Nessa hora, eu já estava perdendo a paciência com aquela pirralha de meio cérebro e disse que não queria pronome e pronto. Ela parou de me importunar, porém, na vez seguinte em que estive na loja, ela e a assistente vieram para o “ataque”. Perguntaram-me por que eu não queria um pronome, e eu disse: “Tenho 57 anos e nunca tive problema com isso; o que eu faço entre quatro paredes é somente da minha conta”. As outras meninas que estavam perto olharam para mim com os olhos arregalados; de repente, elas enxergaram a manipulação da empresa. Eu, que estive tão focada em ficar bem, não entendia por que tinha que usar um pronome para dizer que sou mulher. Isso deixou de ser óbvio? Se antes eu, ingenuamente, não acreditava que tinha um alvo na testa, agora eu tinha certeza!

Então, meus caros leitores, depois de todas essas “tempestades no sertão”, o câncer foi a que mais me ensinou sobre sobrevivência, sobre não ter “papas na língua” e sobre amor-próprio. Foi essa última tempestade, também, que me deixou cicatrizes no corpo e abalou a minha alma de mulher. Por isso, resolvi despir-me para poder encarar essa nova mulher: talvez com cicatrizes físicas feias, mas com uma essência de alma bem linda, ainda que eu mesma diga! Sim, SOU MULHER. PONTO.

Fiquem com as fotos e o poema!

Até a próxima!

Aída, Sobrevivente de Câncer de Mama!

A primeira foto e a mais dificil… não conseguia olhar para a câmera !

Tudo mudou,
Depois de um resultado,
O mundo acordou,
Mas eu não tinha despertado!

No meio daquela loucura,
O foco do mundo era sobreviver,
E achar a tal cura,
E eu só tentando entender…

Liguei o piloto automático,
E segui as instruções,
Senti-me dentro de um mundo lunático,
Desprovido de emoções!

Mas o destino me deu uma surpresa,
Para compensar todo sofrimento,
Que me tirou a beleza,
Mas era a cicatriz do livramento.

Formando ali um coração,
De onde o mal foi removido,
Sendo o de dentro paixão,
E o de fora, invertido!

E com muito mais amor!

Aída
18/03/24

Essa matéria que foi inspirada por minha mãe, é um presente para todas as mulheres! Foram minhas lembranças dela que tive força para lutar e poder dizer: EU VENCI! E tenho certeza que você também tem, pelo menos uma mulher como inspiração em sua vida!

14 COMMENTS

  1. Seu relato é de uma força que atravessa a alma. Que história linda, dura e verdadeira… você não só sobreviveu, você floresceu. Obrigada por lembrar ao mundo o que é ser mulher de verdade.

    • Obrigada Samira! Com tanta doideira por ai, temos que lembrar sempre que não precisamos nos fazer valer. Existem homens e mulheres, os outros que se encaixem na maioria! Volte sempre! 😘

  2. Mais uma vez o site deu pau e sumiu com o comentário do Albino então vou copiar aqui o que ele me mandou no WhatsApp :
    Albino disse: Aída, mais uma vez você arrasou. Aproveitou o níver de sua mãe, para relatar a História de sua vida. Sei que não foi nada fácil passar o que você passou, você mostrou que é preciso ter força. É preciso insistir. É preciso não desistir. É preciso se entregar de corpo e alma. É preciso ter fé na vida. É preciso ter fé em Deus. E você mostrou ter tudo isso. Você é um exemplo pra todos nós. Tudo isso lembra uma linda canção na voz da Simone https://youtu.be/gvRV9EMFr4I?si=GHK17dNDcM5kD5iS

    • Querido Albino! Desculpa tanto aperreio com esses comentários, mas vamos conseguir… como você mesmo disse ‘é preciso não desistir’… Ao escutar essa linda musica de Milton Nascimento e Fernando Brant me sinto como as Marias que eles cantam tão lindamente na voz da Simone! Fazer esse artigo foi preciso coragem, que até hoje não sei se tive… preparei tudo no dia anterior e no sábado publiquei sem ler de novo para não desistir! Confesso que estava com medo do julgmantos, mas agora que o fiz me sinto mesmo como as Marias da música! Brigada Albino! 😘

  3. Aída querida você é LUZ, uma presença na luta da superação, parabéns por tanta MARIA no seu coração…UMA CERTA MAGIA,UMA FORÇA QUE NOS ALERTA…lembrar de sua mãe é sempre doçura e força,características que com certeza foram pilares de uma construção interna imensa…você é um exemplo de MARIA, sim a filha da D. Maria José e do Sr. Fernando…você é mãe, é preciso olhar com muita atenção para todas as poesias que retratam UMA MULHER AÍDA de útero coração, de inteligência emocional…um SER HUMANO que reconstroi a vida todo dia…de peito aberto em instantes eternizados…AÍDA!!!!!!!!!

    • Querida Cris, Brigada! É quando leio os comentários que vejo que todo o amor que coloco aqui, está sendo retribuído! e sim, acredito que sou ‘uma mulher que merece viver e sonhar como outra qualquer do planeta’ e é aqui nesse espaço que coloco meus sonhos e meus amores! 😘

  4. Aida,
    Esta matéria é muito mais do que uma matéria. Ela é um retrato de coragem, de força e de uma mulher que transformou dor em esperança. Ao olhar para você, vemos a beleza de quem enfrentou batalhas difíceis e, mesmo assim, escolheu seguir em frente com dignidade e luz.
    Na fotografia, seu olhar transmite determinação, sua postura mostra coragem, e sua história inspira todos ao seu redor. Você é prova viva de que a verdadeira beleza nasce da superação, da fé e da força que existe dentro do coração.
    Que essa materia lembre sempre o quanto você é forte, admirável e especial. Sua caminhada é um exemplo de esperança para muitas pessoas. Tenho muito orgulho de você e da mulher incrível que é. Sou sua fã número um.
    Beijos!

    • Querida Ana, ‘parça’ de passear no congelador do mundo! rsrs Obrigada por deixar tão lindo comentário, talvez uma das matérias mais difíceis de publicar e mostrar o meu coração ‘invertido’! Conformar-me que agora eu sou assim, que mesmo esteticamente a cicatriz me fez achar difícil de olhar no espelho, ler que você me acha tudo isso que escreveu e ainda se diz minha fã número 1☝️ me deixou muito emocionada! Feliz que agora você consegue entrar no meu site! Que meus voos sejam também seus! 😘

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