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A Vida é Como a Mãe

A gente só tem uma, e ela sempre perdoa!

Queridos Leitores,

Hoje venho falar de comemoração de uma data, o dia 21 de Agosto! Data essa que coincidentemente duas coisas importantes aconteceram em minha vida, que me ensinaram e continuam me ensinando. E como são fatos bem importantes na vida desta colunista que vos escreve é que tenho dividido tantas coisas com vocês, nada mais justo do que contar aqui um pouco dessa ‘saga’ que foi o começo.

Dia 21 de Agosto de 1990 foi a primeira vez que coloquei meus pés na Inglaterra. Tinha passado por Portugal, Suíça e Holanda antes de chegar aqui. Lisboa foi minha primeira parada, mamãe disse que chegar por Portugal é sempre a melhor maneira, porém o choque de estar em outro continente é sempre grande, e senti esse choque.  Fiquei hospedada em albergues e na casa de uma amiga de um amigo. Um apartamento inteiro pra mim em Genebra (na realidade não era em Genebra mas numa cidade bem perto) na Suíça. Esse meu amigo estava de mudança, acredito que estava indo pros Estados Unidos e então o apartamento dele tava já  sem nada, mas foi bem legal , teve até uma festa de despedida dele…. Apesar de que Genebra (tudo organizado demais) é chata pra caramba me diverti bastante. O maior choque na Suíça foi ver a limpeza, eu tinha achado Lisboa muito suja. Pessoas passaram em minha vida. No avião conheci um cearense da minha idade e viramos parceiros em Lisboa. No aeroporto de Genebra conheci um português que trabalhava no guarda malas e guardou minha mala com preço que ele pagaria como funcionário. No avião tinha conhecido um casal que estava indo pra mesma cidade que fiquei e me deram carona. Meu amigo só podia me ver de noite por causa do trabalho e lembro que no primeiro dia ele me levou numa ponte em Genebra e disse: é daqui dessa ponte que as pessoas se suicidam. Eu fiquei meio que sem ter o que dizer, já pensou? Eu sem palavras? Ai ele olhou pra mim bem sério e perguntou se eu queria descer ali pra tirar fotos, eu fiquei, mais uma vez, meio que sem saber o que responder, mas ai veio uma pergunta: você quer me jogar da ponte pra ver se serve pra assassinato? Foi aí que ele caiu na gargalhada e eu relaxei. Ele era meu amigo de anos, brasileiro, e apesar de ser de Maceió ele vivia em Brasília, então ele me explicou que era o humor suíço, mas eu não estava acostumada com o humor da Suíça. Deu uma confusão com minha passagem e eu praticamente tive que ficar mais um dia em Genebra, então só passei uma noite na Holanda pois não podia mudar o dia de minha chegada em Londres. Tinham pessoas me esperando e eu não tinha como avisar da troca de data, então não conheci nada na Holanda, porém por causa disso eu viajei de executiva de Genebra pra Amsterdã, hotel gratuito e executiva até Londres, que deve ter me ajudado a entrar sem muitas perguntas… rsrs. Quem vem com má intenções de ficar por aqui fica nervoso na hora que se vê em frente aos oficiais da imigração, mas como eu já tinha tido o problema da passagem, nem pensei na tal da imigração.

Bar La Spezia com minhas colegas: a espanhola que não lembro o nome, Martina a italiana, Carina a sub gerente sueca e eu – 1993

Mas não vou aqui escrever toda uma retrospectiva vou pular direto para o dia 21 de Agosto de 2013, nesse dia, uma quarta-feira foi meu primeiro dia trabalhando pra MAC. Eu já tinha 16 anos trabalhando com maquiagem, contando também a faculdade, e acredito, foi um momento que pensei: agora posso começar a ir devagar, parar com o freelancer e trabalhar sem ‘expectativa’, estar cercada de maquiagem e outros maquiadores era uma experiência nova, pois trabalho freelancer é um trabalho solitário e eu tive a sorte de entrar na MAC ainda no auge, onde a arte era mais importante que a venda, onde a satisfação do cliente era mais valorizada que o produto que ela comprava. Eu fui colocada numa loja bem legal, num lado era a ‘city’ com muitos bancários e bolsa de valores esse tipo de coisa, do outro tinha a ‘Bricklane’, lugar totalmente diferente, muito artístico, berço dos grafiteiros, área também é famosa pois o ‘Jack the Ripper’ andava por ela e com certeza vou fazer um artigo só sobre essa área, que muita gente não tem idéia de como é legal e só se prende ao ‘Westend’ (lado oeste) de Londres.

Foto: Aída B. Britto
Um doas minhas melhores maquiagens de Halloween na MAC – Pop-Art – 2014

Entre esses dois ’21 de Agosto’ e até segunda passada muitas águas passaram por debaixo dessa ponte. De sub empregos, com medo de ser pega pela imigração até a legalização através do casamento, que foi por amor, mas que não deu certo e que me deu inúmeras possibilidades. Foi aqui que descobri que sou uma pessoa capaz, que sei me virar sozinha e o mais importante, foi aqui que perdi o medo de ser eu a artista, a maquiadora, a escritora, a fotógrafa e apesar de que tudo que vivo aqui é em inglês e longe de minha terra natal, tudo isso não teria sido possível sem a minha base, minha educação e meus pais. Tive que fazer escolhas, e quando se tem que escolher algo, tem sempre um lado que sai perdendo. Foi certo o que fiz? Não sei, pra mim foi, meu irmão adoeceu e eu tive que segurar a onda daqui de longe. O mesmo com minha mãe e meu pai, mas eles sabiam que eu estava perto mesmo de longe, e isso pra mim era o suficiente. Foi parte de minha escolha, mas não sinto que amo menos minha família por estar longe, na verdade tudo que aconteceu nesses 33 21 de agosto fazem parte de minha vida, como os 26 anos que vivi no Brasil.

Foto: Aída B. Britto
Essa foi minha sereia do Halloween em 2017

Pra mim o 21 de Agosto mais comemorado foi o de 2021. No final de 2020 eu fui diagnosticada com câncer de mama. Não sei como é pra outras pessoas, mas eu achei que era meu fim. Eu escutava as mesmas coisas que eu mesma disse pra Ricardo e só eu sei o quanto foi difícil de digerir essa notícia. A Núbia, Fernandinho, minhas sobrinhas e amigos eu dizia estar bem, mas no começo eu não estava e nem sabia se ia ter forças para lutar, mas rapidamente a equipe médica começou com a investigação, exames, biópsias que tive que focar no tratamento, ficava tão cansada com tanta informação que parei de pensar, me concentrava em não me enganar com os horários de estar no hospital e os horários do trabalho. Em Dezembro as lojas abriram do dia 02 até o dia 19, e foi exatamente nesse dia que eu comecei a sentir sintomas de gripe. Tudo que eu sentia era o contrário do que diziam do covid, e cada dia eu me sentia pior. Não conseguia comer, e acordava no meio da noite tremendo de frio. Dessa vez eu pensei mesmo que não ia ver o ano novo e depois de muita confusão fizeram o exame e eu estava com covid, mas no dia 04 de Janeiro eu tinha uma consulta no hospital e eu já estava liberada pra ir e chegando lá, os médicos já sabiam de tudo. Nesse dia já fizeram todo meu pré-operatório e um raio X do pulmão pois eles queriam me operar em um mês. A essa altura a sobrinha da minha vizinha já tinha voltado de Portugal e ela começou a fazer minhas compras. A gente se divertia, pois ela queria comprar exatamente o que eu gostava, então era como se fosse um jogo de caça ao tesouro. Quando faltava 10 dias pra operação recebi uma ligação do cirurgião (coisa rara) me pedindo pra ir no hospital fazer outro raio X do pulmão pra minha operação ser liberada. Fui no mesmo dia, e mais tarde ele me ligou pra dizer que a operação ia acontecer. Foi um grande alívio, não via a hora de ter o ‘invasor’ expulso do meu corpo. A mesma amiga que foi comigo receber os resultados dos exames iniciais me levou pro hospital pra fazer os exames de covid, uma semana antes, e no dia da operação fui levada por um serviço do NHS que é como um táxi-ambulância. Deu trabalho pra conseguir pois o hospital em que fui operada era particular, pois os hospitais do NHS não estavam operando para cirurgia , e a lei daqui diz que os hospitais particulares tem que ceder espaço pra saúde pública quando preciso for. Eu não podia ter ninguém me acompanhando e era pra eu ter saído no mesmo dia, porém houve um atraso em uma das cirurgias antes da minha então eu tive que ficar até o outro dia, no que eu não reclamei pois o hospital era como se fosse um hotel de luxo, e se é pra estar só então nada melhor do que sentir-se num Spa! Duas semanas mais tarde fui no hospital e saber o que seria o próximo passo. Já saí de lá com instruções de como fazer durante a quimioterapia, aí voltou aquele pensamento de novo, uma agonia, uma sensação de que tudo estava perdido. O pais continuava fechado pra quem vinha do Brasil e eu tinha que pensar em como iria enfrentar tudo sozinha, porém eu não estava sozinha, Deus estava comigo o tempo todo e quando fui pra Oncologista ela me explicou quem não precisaria de quimioterapia! Eu fiquei meio que sem ação ai perguntei: tem certeza? Ela começou a rir e me mostrou lá no papel e me explicou de novo eu olhando pros números, dessa vez eu queria dar um abraço nela ou na enfermeira mas não podia, nem tão pouco podia gritar pois estava em um hospital. Eu tremia dos pés à cabeça e não sei como consegui voltar pra sala de espera pra fazer a consulta de preparação pra radioterapia! Quando terminou sai do hospital e dei  maior grito pra deixar sair todo aquele terror e aliviar meu coração. Ao chegar em casa me ajoelhei pra agradecer a Deus o milagre, pois mesmo que a ciência diga que não foi, eu tenho certeza que foi. Bom, fui chamada pra fazer as medidas para a radioterapia, porém a enfermeira comentou que tinha um caroço onde tinha operado, liguei pra minha enfermeira de apoio e ela mandou eu ir no hospital. O caroço era fluido e foram retirados 50ml desse fluido. Então tive que voltar pra medir de novo e isso atrasou a radioterapia em uma semana. Em maio tudo já estava terminado. Eu tomando um remédio pra compensar que não tive químio, cálcio e pronto, hora de voltar a viver, mas não foi bem assim…

Foto: Aída B. Britto
Monitores da radioterapia mostrando os gráficos

Eu estava muito feliz, porém sentia uma canseira sem fim, eram os efeitos colaterais da radioterapia e também do medicamento, e eu pensando que minha vida ia voltar ao normal…rsrs. Mas o que é normal? Nesse mesmo tempo uma pessoa que conheço me mandou um link de uma agência que estava à procura de pessoas com cabelos brancos e na menopausa e eu feito uma maluca fui lá e me inscrevi. Ai eles me pediram pra fazer um vídeo falando dos cabelos, dos efeitos da menopausa neles e que no final eu colocasse uma música e dançasse. A maluca aqui fez tudo isso…rsrs na minha cabeça eu pensava: eu não quero nem saber, se me chamarem ou não, eu pago mico mas pago feliz!

Foto: Aída B. Britto
A maca preparada para mim e eu preparada para a máquina

Voltei a trabalhar em Julho, mas devagar, e na última semana de julho eu tive férias pois era meu aniversário e dois dias antes de voltar eu escorreguei porém pra não machucar meu braço esquerdo eu tentei parar a queda colocando a mão na parede e desloquei meu braço e teve uma pequena fratura. Quanta dor que eu senti, e mais uma vez presa em casa. Eu estava sem poder usar os meus dois braços então o médico providenciou cuidado de emergência até segunda feira e depois disso eu tive uma cuidadora por 3 meses. Eu dormia recostada pois não aguentava deitar. A cuidadora vinha de manhã, me dava banho fazia meu café e lavava a louça. Eu não quis ninguém na hora do almoço, então ela vinha no final da tarde pra me aprontar pra cama e fazer meu jantar e lavar a louça. Passei o 21 de Agosto de cama, e tentando não deixar que o acidente estragasse tudo que tinha conseguido até agora: não pirar de vez, mas na verdade eu não sei se consegui, mas não desisti e continuo trabalhando isso.

Foto: Aída B. Britto
E essa foi de Valentines Day, simples e cheia de amor! – 2018

Gosto de comemorar o 21 de Agosto, pois quando eu cheguei aqui eu só tinha a intenção de ficar por um ano, mas eu gostei tanto da pessoa dinâmica, determinada, independente e batalhadora que me tornei que achei que ia ser difícil me adaptar à volta ao Brasil e em Maceió. Eu não conseguia me ver morando de volta na casa de meus pais e eu não conseguia ver nenhuma oportunidade pra mim, mas eu queria ficar, até que aconteceu uns problemas e meu ex-marido, na época meu namorado, me pediu pra voltar mas eu disse que só voltaria se eu pudesse trabalhar legalmente e como queríamos estar juntos resolvemos nos casar.

O vídeo de hoje marca um momento que tem a ver com minha gratidão ao terminar o tratamento. É o vídeo da audição pra virar modelo de cabelo… Mico total rsrs!

De todas as minhas lutas eu sempre tento ver o lado positivo, por isso que o acidente foi realmente uma queda, até hoje não entendi o propósito desse acidente. Além de ter me debilitado mais por causa das inúmeras radiografias (acredito que na época eu brilhava no escuro de tanta radiação) também atrasou minha recuperação física que simplesmente tive que parar todo tipo de exercício. Porém minha gratidão cresce a cada dia. Tenho orgulho de ser britânica pois foi aqui que me descobri, tenho também orgulho de ser brasileira pois o Brasil é o meu alicerce! Minhas escolhas foram boas pra mim, mas nem tudo foram flores e vou sempre carregar comigo a dor de ter ferido algumas pessoas por causa delas, porém a vida é como a mãe, a gente só tem uma e ela sempre perdoa!

Foto: Aída B. Britto
Sensação de vitória na última sessão de radioterapia. Gratidão!

Viva o dia 21 de Agosto!

Até a próxima!

Aída

Foto: Aída B. Britto
Como pode alguém viver sem poesia?
Não olhar em sua volta,
Lhe torna uma pessoa vazia,
E só a sua certeza importa.

Não precisa saber fazer rimas,
Nem viver fora da realidade,
Poesias são bem íntimas,
Que embelezam a sua verdade!

O seu olhar é seu melhor professor,
Pois lhe guia com percepção,
Do feio ver o amor,
E do bonito a gratidão!

Seja poeta da vida!

Aída
28/10/2021

  

  1. Ao ler tão inspiradores e comoventes relatos amparados no dia 21/08 conhecido como o “dia da pessoa notável” fui instado a obter os sentimentos que você transmitiu. Fiz trajetórias, reflexões e renascimentos. “Na música, duas vozes criam um espaço entre si porque acontecem ao mesmo tempo” essa pode ser a meditação. Tanta coragem e resiliência para doação de ser e existir. Não estou impressionado pois a conheço. Mais afirmo você é iluminada e impressionante! Parabéns, Aída!
    Vivas a Mãe Vida!

    • Meu querido amigo Robertinho,
      Toda vez vc me emociona com seus comentários! Você foi uma pessoa muito presente durante a minha saga de 20/21, e mais ainda depois dela. Sou grata por todo seu carinho e toda atenção que até hoje vc me dispensa. Às vezes não sei o que fazer , aí pergunto a vc e o que mais gosto é que ao invés de me responder você me faz pensar… aí a decisão em…
      Tem também todo o apoio e empurrão que vc me dá e estamos vendo aqui no ‘nosso’ ( que o Luís e a Karina não se chateiem de chamar de nosso rsrs) jornal os frutos da sementes que vc planta na minha cabeça, ou será que são pulgas? Sou grata 🙏🏼 por tudo e muito mais, mas muito grata por Deus ter colocado vc em minha vida!
      😘

  2. Querida Aída, após ler o texto e assistir ao vídeo, parei um pouco para pensar e escolher uma palavra que resumisse tudo o que relatou mostrando em detalhes tudo o que você passou. Sofrimento, dor, alívio, ajuda dos anjos da vida, choro de alegria, sorrisos e amor a vida.
    Sim, Aída a palavra escolhida é GUERREIRA. Você é uma fortaleza. Exemplo de vida para muita gente e pra mim também. Beijos.

  3. Querido amigo inusitado Albino, sou grata por seu carinho e me sinto muito privilegiada de ter você como amigo. Adoro suas observações sutis, mas que atingem seu objetivo… fui olhar no Google sobre mulheres guerreiras e duas se destacaram pra mim Boudicca e Joanna D’arc e me sinto honrada por ter sido colocada no mesmo patamar dessas guerreiras! Cada um com sua guerra né? Grata 🙏🏼 pelo carinho e continue lendo minhas mal traçadas linhas!

  4. Aida,
    Hoje aqui esperando alta de minha mãe “Carmelitinha”, que teve um AIT (Ataque Isquemico temporário) lendo seu texto e visualizando vc na UFAL, menina sempre alegre e muito hiperativa, alegre…sabia que vc não ia se limitar aqui nesse país. Fico feliz com sua maturidade e coragem, que Deus continue te protegendo. Bjosssss

    • Amém 🙏🏼 Fátima! Com certeza vc estava certa que eu não ficaria no Brasil 🇧🇷, mas por muito tempo eu não via nada, nenhuma oportunidade aí ou em qualquer lugar… mas como disse no texto hoje sou grata 🙏🏼 por meus países e principalmente a Deus que sempre está comigo! Continue lendo minhas colunas pois pra mim é muito gratificante! 😘

  5. A sua vida é cheia de aventuras, poesias, lutas e superações e o 21/08 não poderia ser diferente.
    Adorei mais uma vez os seus relatos. 😘

    • Grata 🙏🏼 Dione! É com imensa alegria que leio seus comentários! Sei que não preciso pedir pra continuar lendo, pois sei que sempre arranja esse tempo! 😘

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